Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2006

A Bula

“Efeitos Secundários Possíveis - perturbações da formação do sangue (trombocitopénia, leucopénia, casos isolados de agranulocitose, pancitopénia); broncoespasmo (....) edema de Quincke, ...”
“- O quê?”- Esta será a pergunta que a maioria dos utilizadores fará quando estiver a ler o folheto informativo (bula) após lhe ter sido prescrito Paracetamol-1g. Sim, esse mesmo! Um analgésico e antipirético vulgarmente utilizado para tratar, na gíria comum, “dores e febre”. Posto isto, um par de conclusões se tornam evidentes. A primeira, a de que não há medicamentos inócuos e a segunda de que os folhetos informativos dos medicamentos podem criar confusões numa parte significativa dos doentes.
Quanto à primeira, pese embora as mais recentes medidas implementadas pela tutela na área do medicamento vão no sentido de equiparar os fármacos a um qualquer outro produto, sejam eles dentífricos, taludas ou pilhas para o rádio passíveis de serem vendidos em qualquer “canto e esquina”, por mais inofensivo que um medicamento possa parecer há cuidados a ter e riscos a assumir. No caso do Paracetamol, segundo estudo apresentado pela Unidade de Farmacovigilância do Norte (UFN), sete em cada cem reacções adversas a medicamentos notificadas dizem respeito a este princípio activo, com especial destaque para as lesões cutâneas mas também para as dificuldades respiratórias e, em menor grau o choque anafilático. Sabendo que um medicamento pode produzir vários efeitos, cabe ao médico avaliar o risco-benefício da sua utilização e decidir-se ou não pelo seu uso, mesmo que, para obter o resultado esperado, o doente tenha de resistir aos efeitos indesejáveis. Reflexo deste binómio são os resultados mais recentes apresentados nos Estados Unidos onde é estimado que cerca de 10% das admissões nos seus hospitais ocorram para o tratamento de reacções medicamentosas adversas e que cerca de 15% a 30% dos pacientes já hospitalizados apresentam pelo menos uma reacção medicamentosa adversa.
No que respeita à segunda, é igualmente percepcionada a dificuldade da generalidade dos utilizadores de qualquer medicamento em perceber na íntegra o conteúdo de uma folheto informativo, advindo desse desconhecimento frequente e maioritariamente duas atitudes: o alarme e a desconfiança inicial ou a manifestação de um ou vários sintomas descritos nos folhetos informativos que, de uma forma incorrecta, é interpretada como resultado dos fármacos. Nos dois casos a consequência é invariavelmente a mesma: o abandono da terapêutica. Assim, segundo estudos recentes, cerca de metade dos doentes crónicos abandona a medicação colocando em risco o tratamento e desperdiçando medicamentos, na maioria, comparticipados pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS). Existem de facto muitos outros factores que podem potenciar esta decisão. O preço é, sem dúvida um deles. Outro simplesmente pelo doente não sentir melhoras imediatas e pensar que o medicamento “não presta”. Contudo, a utilização nos folhetos informativos que acompanham os fármacos de termos muito técnicos, potenciam interpretações incorrectas pelos doentes levando em alguns casos a que estes tomem a decisão de interromper a terapêutica, convencidos de que os sintomas que manifesta se devem aos medicamentos. Acresce o facto de nem sempre serem devidamente esclarecidos pelos profissionais de saúde sobre o real impacto dos medicamentos. Urge assim encontrar alternativas e formatos diferentes para que se possa explicar de uma forma tão simples quanto eficaz o modo de actuação (indicação terapêutica; efeitos secundários; posologia; modo e via de administração; precauções especiais, etc.) dos medicamentos, os seus riscos e os seus benefícios.
Não seria mais fácil perceber:“Efeitos Secundários Possíveis - perturbações da formação do sangue (diminuição das plaquetas, dos glóbulos brancos e de todos os tipos de células sanguíneas ); broncoespasmo (....) ou aparecimento brusco de edemas firmes, bem delimitados, salientes, localizados especialmente na face e nas partes genitais e que pode por vezes atingir as vias respiratórias superiores, podendo associar-se a urticária crónica e a outras manifestações alérgicas, como a asma, a enxaqueca, etc ...” ?
publicado por Mário Peixoto às 13:19
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Março 2008

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. De costas voltadas....

. Com ou 100

. O poder do Blush

. Construir a Casa pelo Tel...

. O Enterro da Beata

. Promessas escritas...

. Banco Local de Voluntaria...

. Em nome da verdade

. Socorro

. O Ministro da Saúde e a a...

.arquivos

. Março 2008

. Janeiro 2008

. Junho 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Dezembro 2006

. Junho 2006

. Abril 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds