Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2006

Velhos são os trapos

“Chegar à terceira idade
Não é chegar ao fim da vida
É sentir a felicidade
Doutra etapa vencida”


Primeiro e durante séculos a problemática do envelhecimento foi abordada à luz das crenças, das superstições e do recurso aos prometedores elixires da juventude. Mais tarde, assente em critérios médicos tradicionais, a abordagem negligenciava o idoso na perspectiva holística que lhe era exigida. Hoje, são frequentes os pomposos discursos políticos que apontam como prioridade o apoio à designada “terceira idade” mas que invariavelmente se têm ficado pelo infindável rol de promessas eleitorais.
Há, de facto, para que se possa actuar em conformidade, uma necessidade premente de se conhecer os dados sobre o estado de saúde e o grau de autonomia das pessoas idosas em Portugal. Tal é justificado pela acelerada transição demográfica que o nosso País tem conhecido, caracterizado por um aumento progressivo e acentuado da população adulta e idosa com fortes implicações ao nível do sector da saúde.
Para esta transição, tem contribuído em larga medida, a cada vez maior eficácia dos mecanismos postos ao combate às doenças, da maior consciencialização e auto promoção da saúde de cada indivíduo mas também da diminuição dos índices de natalidade. Envelhecer é um processo natural, individual e não homogéneo, isto é, nem todos envelhecem da mesma maneira, caracterizado pela perda progressiva da capacidade de adaptação do organismo às condições variáveis do ambiente, mesmo que se trate das capacidades físicas ou mentais necessárias para efectuar simples tarefas diárias. É, pois, necessário aprender a envelhecer! Esta aprendizagem deve ser global, interdisciplinar, eficaz e participativa, isto é, quer pelo próprio indivíduo, quer pela sua família e, naturalmente, pela sociedade- representada pelo Estado- a quem cabe traçar linhas orientadoras que possam melhorar, pelo menos três requisitos essenciais: a manutenção de um envelhecimento saudável; a promoção da autonomia do próprio indivíduo e a intervenção dos prestadores de cuidados para aqueles que verdadeiramente necessitam de apoio.
A manutenção de um envelhecimento saudável seria facilitada caso a sociedade, cada vez mais mercantilista, que marginaliza os mais idosos rotulando-os de pouco produtivos, assumisse a mais valia desta faixa etária e capitalizasse a sua experiência. Exceptuando casos pontuais em que o indivíduo manifestamente deseja libertar-se da actividade, essencialmente laboral, a reforma constitui, por vezes, mais um trauma do que uma libertação, já que a inactividade a que é votado provoca sentimentos de inutilidade e de afastamento. O fomento da participação em actividades, a promoção de projectos de vida a curto, médio e longo prazo são pois factores de enorme influência para um processo de envelhecimento saudável. Estamos assim perante um fenómeno que carece de aprendizagem, de adaptações, onde a velhice é encarada como um processo construtivo contínuo onde se devem valorizar os aspectos positivos e desvalorizar as perdas e diminuições de capacidades físicas ou intelectuais. Outro dos requisitos considerados essenciais passa pela promoção da autonomia nesta fase da vida e esta indiscutivelmente pela consciencialização individual e pela percepção de que cada um é o primeiro recurso para a promoção da sua própria saúde. Tal nem sempre é fácil na medida em que, face à progressiva consciencialização da diminuição das capacidades e à inerente alteração das rotinas, torna-se necessário encorajá-los a participar neste processo. Por fim e não menos importante, há que garantir a melhoria da intervenção dos prestadores de cuidados para aqueles que realmente necessitam de apoio. São, pelos responsáveis políticos do sector, assumidas as crescentes necessidades não-satisfeitas na saúde e no apoio social às pessoas idosas e em situação de dependência. Acresce o facto de as respostas serem ainda hoje “desadequadas, insuficientes, ineficientes e, o mais grave, de acesso profundamente inequitativo”. Posto isto, num cenário que se adivinha de aumento acentuado da necessidade de cuidados de saúde da população mais idosa, e de um aumento significativo da prevalência de doenças de evolução prolongada com elevado grau incapacitante, urge, a este nível, sob pena de se criarem situações de exclusão e desigualdade social, mudanças das políticas de saúde e de solidariedade social.
publicado por Mário Peixoto às 13:19
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Março 2008

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. De costas voltadas....

. Com ou 100

. O poder do Blush

. Construir a Casa pelo Tel...

. O Enterro da Beata

. Promessas escritas...

. Banco Local de Voluntaria...

. Em nome da verdade

. Socorro

. O Ministro da Saúde e a a...

.arquivos

. Março 2008

. Janeiro 2008

. Junho 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Dezembro 2006

. Junho 2006

. Abril 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds