Quarta-feira, 7 de Março de 2007

Rede de Urgências

Por se tratar de um questão que, por menos que queiramos acaba por nos tocar a todos, fruto de uma utilização mais ou menos frequente dos serviços, a questão em torno da famigerada proposta de reorganização das urgências hospitalares assume especial importância e é alvo de inúmeros comentários, sejam eles mais emotivos ou mais racionais. É de facto uma matéria tão sensível quanto complexa pelo que os pontos de discórdia que têm vindo a público merecem ser analisados à luz, precisamente, da razão dos que beneficiariam com as alterações propostas e da emoção daqueles que vêm as suas regalias, muitas vezes já diminutas, esfumarem-se de forma injusta. Este sentimento é potenciado naqueles, em especial das zonas mais interiores e rurais, que vêm os seus impostos serem afectados de igual forma para o orçamento da Saúde sem terem o mesmo retorno ao nível do serviço prestado ou de qualquer outra contrapartida.
Apontada como uma prioridade e sob o espectro da racionalização de recursos, ao qual são acrescentados os objectivos de melhoria da qualidade da assistência urgente e emergente, da acessibilidade e da equidade no acesso, o governo apresentou recentemente uma proposta que pretende redefinir a rede, obsoleta, desajustada e desenquadrada de Urgência/Emergência que existia no nosso país, criada em 2001. Para tal são redefinidos, para além de outros critérios como o tempo de resposta do socorro ao local, do tempo de trajecto ao Serviço de Urgência (SU) ou da capitação, os níveis de SU, passando estes a designar-se por: Serviço de Urgência Polivalente (SUP); Serviço de Urgência Médico Cirúrgica (SUMC) e Serviço de Urgência Básico (SUB).
Não pondo em causa a boa fé e intenção com que foi projectada, a mesma parece contudo ter partido do pressuposto, infelizmente errado, que todo o restante Serviço de Saúde em Portugal funciona a 100%. Tal facto, como é por demais evidente, não corresponde à verdade e pode ser demonstrada facilmente, quer por aqueles que ainda não têm médico de família quer pelos que, tendo médico de família, aguardam horas, dias, semanas ou meses por uma consulta nos Centros de Saúde. Esta situação reflecte-se negativamente e fomenta a consciência, já de si enraizada na população portuguesa, de que os seus problemas apenas são resolvidos nas urgências hospitalares, por incapacidade de resposta do resto do Sistema de Saúde, o que, aliado à falta de informação e à desorientação que se foi instalando, justifica um fluxo tão grande quanto, por vezes, injustificado a estes serviços. Outra das questões que parece não ter sido tomada em consideração na proposta apresentada passa pela afectação dos recursos humanos. São anunciados 15 encerramentos em outros tantos locais o que exigirá uma deslocalização dos profissionais que aí laboravam e um aumento do número global de SU com a inerente necessidade de alocação de recursos (é definido um mínimo de dois médicos e dois enfermeiros por cada SUB). Conhecida a escassez destes profissionais em Portugal e o crescente recurso a outros oriundos de variados países, cujo perfil técnico não deve ser posto em causa mas cujas dificuldades, seja por questões culturais ou puramente linguísticas, são muitas vezes evidenciadas, ajuda a fomentar a ideia de que se começou a “construir a casa pelo telhado”.
Estas medidas, para além de coerentes e ajustadas a cada realidade, necessitariam de ser explicadas à população de forma firme, é certo, mas também de forma simples e eficaz. Contudo, a postura do Ministro Correia de Campos, já de si fragilizado pela política essencialmente economicista que tem vindo a seguir espelhada em medidas como o encerramento de maternidades, o aumento das taxas moderadoras ou a diminuição da comparticipação de medicamentos, não tem sido a mais eficaz, pautando-se inclusive pelo distanciamento, autismo, prepotência e pelo ataque aos autarcas que, independentemente da cor partidária, quiseram dar voz e zelar pelos interesses daqueles que os elegeram como seus representantes no poder local. Afirmações nos orgãos de comunicação social como “É o único responsável por esta situação e tem que acarretar com as consequências”, aludindo ao Presidente da Câmara de Valença ou
"Tornou a sua própria vida mais difícil ao contribuir para a movimentação contra o fecho das urgências”; “o Governo olhará de forma diferente para este caso ", referindo-se ao Presidente da Câmara de Chaves, não dignificam o titular da pasta nem ajudaram a criar o “ambiente” propício e necessário à implementação destas reformas. Posto isto, pese embora os desmentidos e referências ao facto de estarmos apenas perante uma proposta e não um documento final, parece que apenas foram criadas as condições para se rever e alterar o método de implementação da propalada reorganização das urgências hospitalares em Portugal.



Mário Peixoto
publicado por Mário Peixoto às 20:40
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