Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2008

Sociedade Descartável

A circunstância de se tratar de um problema que, não sendo novo, continua a suscitar o debate no seio da sociedade portuguesa, aliada ao facto de congregar múltiplos e importantes aspectos: pessoais, científicos, educacionais, religiosos, sociais e económicos mas, acima de tudo, por ser de uma questão de vida ou de morte, deve levar-nos a reflectir com seriedade sobre um assunto cada vez mais na ordem do dia: a Eutanásia.

Do grego “Eu”, que significa “Boa”, e “Tanathos”, equivalente a “Morte, a Eutanásia refere-se contudo ao acto de tirar a vida de outra pessoa por solicitação dela, com o propósito de acabar com o seu sofrimento. Porém, aquilo que parece tão simples quanto óbvio como “acabar com o sofrimento de outra pessoa” encerra em si mesmo diversas variáveis demasiado complexas para determinar um comportamento, uma atitude que se sabe irreversível, assumida em animadas e ligeiras tertúlias.

Depois, a forte tentação de se politizar aquilo que não deve ser politizado - atente-se às questões levantadas em torno da interrupção voluntária da gravidez - aliada ao mediatismo causado pelos meios de comunicação social distorce por vezes o sentido e a essência, de uma questão que, por mais nobre ou complexa, é reduzida à falácia de um ou de outro argumento que se acentua e impõe, como se de uma regra se tratasse, à medida dos interesses instalados.

São necessários novos dados, novas reflexões, novos gritos neste aparente diálogo surdo que, inibam o carácter populista e facilitista com que é, por norma, exposto o assunto.

Escutar, observar, analisar e, acima de tudo, perceber o sentimento daqueles que, perante a adversidade, maior ou menor em determinado estádio da vida, decidem pedir ajuda sem que essa mesma ajuda passe pelo amor, pelo carinho ou pelo conforto mas pela falsa clemência e pelo egoísmo hipócrita.

Essa auscultação e tentativa de percepção, ética e sociológica, da população idosa portuguesa, residente em lares, com mais de 65 anos e sem doença terminal para a prática da morte assistida esteve na base de mais um dos importantes estudos levados a cabo pelo Serviço de Bioética e Ética Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto .
Deste decorreu que, uma percentagem muito significativa dessas pessoas idosas institucionalizadas, mesmo não sofrendo de doenças crónicas ou terminais, pensa frequentemente na morte. Destas, cerca de 50 por cento admite a legalização da eutanásia.

Os resultados, não sendo surpreendentes, alertam-nos para a problemática em causa e para a sua especial sensibilidade, ajudando certamente a definir as estratégias mais adequadas para prevenir a sua ocorrência.

Estas estratégias assentam especialmente no fomento das redes de cuidados paliativos e de cuidados continuados, tão prometidas quanto ansiadas, tão anunciadas como esquecidas.

Contudo, o desejo da morte, é sabido, não decorre única e exclusivamente da dor física. É resultado também da solidão e do abandono a que são vetados milhares de idosos, como se de objectos descartáveis se tratassem.

É pois igualmente necessário repensar-se o modelo de sociedade que verdadeiramente desejamos.

A sociedade que deu lugar ao indivíduo?

A sociedade que tinha por base a família e que hoje vive obcecada pela progressão profissional, pelo luxo e ostentação, esquecendo valores básicos e essenciais a uma vida mais saudável e harmoniosa?

Será isto que queremos, se não para nós, para os nossos filhos?
publicado por Mário Peixoto às 17:56
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