Quarta-feira, 6 de Outubro de 2004

A Semana da Saúde

No decorrer do seu primeiro mandato, o Presidente Jorge Sampaio decidiu partir para o terreno e dar voz às questões do campo da Saúde. Na altura, questões de cariz eminentemente, chamemo-lhes técnicas ou profissionais, como o fluxo de utentes às urgências hospitalares, a saúde mental, a prevenção do cancro ou a saúde oral constituíam o rol de preocupações mais significativas que pretendia ver discutidas. Volvidos todos estes anos e já num segundo mandato eis que a iniciativa volta a ter lugar. Desta feita com um cariz totalmente diferente, fortemente político, salpicado aqui e ali por alguns laivos ideológicos que mascararam e inclusive tolheram a discussão em torno de algumas questões fulcrais neste âmbito. Louve-se no entanto a iniciativa em si mesma. Com ela, alguns dos actores desta peça, para uns uma “tragicomédia” para outros um filme de “suspense” cujo final é decidido pelos realizadores (entenda-se decisores políticos), subiram ao palco e tiveram a sua oportunidade para publicamente e com maior visibilidade do que é habitual declamarem as suas preocupações, os seus anseios, os seus objectivos ou as suas virtudes.
Essa visibilidade, fortemente condicionada pelas audiências, não foi contudo a que todos esperávamos: será que bastou o mediatismo da famigerada lista de colocação de professores para se sobrepor a assuntos que continuam no topo da lista de preocupações dos portugueses ou, por seu turno, será que a recente avaliação da Organização Mundial de Saúde que coloca Portugal no 12º lugar em matéria de cuidados de Saúde (com mais de 3000 pontos de contacto na prestação dos mesmos cuidados ou, por exemplo, dos progressos assinaláveis ao nível da Saúde Materno Infantil) pressupõe que estamos no bom caminho e que as reformas estão a surtir efeito? Aposto inequivocamente na segunda hipótese. No entanto, como em qualquer sistema, também este necessita de ajustes que fomentem os processos que visem uma melhoria contínua. A supressão de todos os obstáculos que se opõem à optimização da acessibilidade dos cidadãos aos serviços de saúde, com uma utilização racional de recursos (financeiros, humanos, materiais,...) e alicerçada em padrões de qualidade na prestação de serviços devem merecer uma aposta forte, sem recuos políticos, pois só assim poderemos continuar a evoluir de forma sustentada permitindo incrementos nos índices de satisfação dos utentes.
Por entre o ruído de fundo que alguns sectores proporcionaram ao longo desta “Semana da Saúde” lançando para a discussão assuntos que não são, nem de perto nem de longe, fulcrais para o almejo dos objectivos preconizados, foi possível captar algumas mensagens que entendo deverem ser sublinhadas pois a sua implementação reflectirá melhorias substanciais na prestação de mais e melhores cuidados de saúde. Uma delas passa pela defesa da necessidade na melhoria da articulação entre Centros de Saúde e Hospitais e pelo alargamento do modelo de gestão contínua (realce-se, a título de exemplo, o sucesso do modelo de gestão da Unidade Local de Saúde de Matosinhos). Outra pelo estímulo orientado para as carreiras médicas/enfermagem ao nível da saúde familiar (cuidados primários) constituindo então argumentos de peso. Por outro lado, a aposta na promoção e educação para a saúde, seja nas escolas ou através de campanhas generalizadas, com o objectivo de incutir mecanismos de consciencialização individual para a alteração dos estilos de vida não saudáveis, que, esses sim, acabam por onerar de forma suplementar o próprio SNS não podem igualmente ser esquecidos.
É hora de se aprender com os erros cometidos no passado e potenciar os processos com a experiência acumulada. Se estes funcionam, há que enquadrá-los politicamente e, sem deixar de ter como centro das atenções o utente, com vigor, sem recuos e nem cedências, implementá-los concretizando a reforma. Esta quer-se integrada numa estratégia de médio prazo com o aumento da eficiência a ser acompanhado por medidas que permitam o crescimento e consolidação da qualidade do sistema corroborado por mecanismos que evitem selecções adversas.
Finda a semana percebeu-se então que tal reforma está em curso mas deverá ser “afinada” evitando os tais ruídos de fundo que acabam muitas vezes por ditar o insucesso de iniciativas que visam, na sua essência, salvaguardar os interesses dos utentes.



Mário Peixoto
(Farmacêutico)
mariopeixoto@mail.pt
publicado por Mário Peixoto às 15:53
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1 comentário:
De Peliteiro a 15 de Outubro de 2004 às 13:43
Muito bem Mário, um belo artigo.
Este jovem vai longe...


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