Terça-feira, 30 de Novembro de 2004

Unidades Locais de Saúde

“É possível fazer melhor sem gastar muito mais dinheiro” seguindo “ uma linha de rumo muito clara, que dê prioridade às pessoas”- a afirmação é do actual Ministro da Saúde, Dr. Luis Filipe Pereira. Não posso estar mais de acordo. É contudo necessário que se operacionalizem formas de o fazer, ao invés de se divagar sobre os paradigmas que assombram este SNS e, em especial, o modo como se tem organizado. É dado objectivo a necessidade de se alterar e concertar políticas de índole geral e local por forma a flexibilizar a complexa estrutura organizacional e burocrática instalada e assim garantir o designado princípio da igualdade de oportunidades entre os utentes.
Temos vindo nos últimos artigos a falar em fontes de financiamento para a Saúde em Portugal. Constatada que está a necessidade de as diversificar tentando suprir as carências e fragilidades patenteadas, continuamos, até ao momento, impotentes (veja-se o Orçamento para a Saúde e a forma como tem sido necessária a sua constante rectificação) pelo que resta “puxar” pela imaginação e apostar em novos modelos de gestão que possam, com os recursos disponíveis, almejar os princípios consagrados nos próprios estatutos do SNS. Assim, porque não começar, por exemplo, pela melhoraria da articulação entre centros de Saúde e hospitais optimizando um novo modelo de gestão conjunta onde o doente se sinta integrado, com um circuito bem definido e os recursos melhor aproveitados?
Pese embora a aposta, empreendida especialmente no decorrer do XVº Governo Constitucional, vá ao encontro de soluções como a empresarialização dos Hospitais, vulgo Hospitais SA e das Parcerias Público Privadas (PPP), não é de desconsiderar um dos modelos que se pôs em prática no ano de 1999 com resultados, até posteriores análises em contrário, bastantes positivos: as Unidades Locais de Saúde (ULS).
O que é uma ULS? Trata-se de um modelo pioneiro de gestão hospitalar criado por Despacho Ministerial no correr do ano 1999 que integra o Hospital Central e os Centros de Saúde do mesmo Concelho. O exemplo, provavelmente mais conhecido é o da ULS de Matosinhos que integra o Hospital Pedro Hispano e mais quatro Centros de Saúde do mesmo Concelho.
Desde então, pese embora a performance apresentada, a aposta neste modelo caiu um pouco no esquecimento, muito por culpa das escolhas anteriormente referidas. Não obstante e porque certamente a aposta no modelo de empresarialização poderá não se estender a todas as regiões do país por fruto de condicionalismos de vária ordem, surgem os rumores que localidades como a Covilhã; Torres Vedras ou Vila Real poderão ser contempladas com o modelo ULS não colidindo assim com a escolha assumida.
Este deverá contemplar as variadas realidades quer sociais, económicas e culturais da localidade e fruto de uma sinergia de esforço integrar os vários componentes. Da mesma forma deverão ser supervisionados fazendo uso de instrumentos de gestão empresarial permitindo a demonstração, a quem de direito ( Ministério da Saúde, ARS e porque não até as autarquias....numa visão já mais verdadeiramente descentralizadora) dos resultados obtidos, conceito designado por accountability. Sabemos que existem várias problemáticas adjacentes a esta implementação e que passam essencialmente pela equiparação das carreiras médicas (clínico hospitalar vs médico família). Tal não deve nem pode impedir o desenvolvimento de um dos pilares mais importantes, diria mesmo estratégico, do circuito do doente que são os Cuidados Primários.
Atente-se nas recomendações da própria OCDE que espelham a necessidade de se integrar os prestadores de cuidados de saúde para reduzir a ineficiência e a duplicação de actos. O conceito ULS assenta aqui “como uma luva”. Veja-se assim algumas das vantagens deste modelo:
- Diminuição das “falsas” urgências hospitalares na medida em que os Centros de Saúde (Cuidados Primários) resolvem uma esmagadora maioria das ocorrências permitindo assim funcionar como um escape para o próprio o sistema.
- O circuito do doente no sistema, entre hospital, centro de saúde ou outra unidade de saúde seleccionada encontra-se bastante melhor definido e mais facilmente monitorizável.
- A integração poderá ainda permitir uma melhor utilização da capacidade instalada, quer a nível de equipamentos quer a nível de mobilização e gestão de recursos humanos
- As parcerias/projectos que vão sendo encetadas com as Organizações não Governamentais podem ser generalizadas e capitalizadas.
- A presença de um membro do Centro Saúde no Conselho de Administração da ULS permitirá uma melhor articulação não só com o Centro de Saúde como também com as suas extensões
As vantagens parecem ser óbvias mas, como em qualquer modelo implementado ou a implementar, só serão efectivas se tivermos estudos que sustentem a sua mais valia. Nesse sentido, mais em jeito do alerta do que discordância, chamo a atenção para os estudos efectuados no seio do NHS ( Sistema Saúde Britânico) sobre a sua experiência na implementação de Parcerias Público Privadas cujos resultados fizeram levantar um coro de protestos da mais variada ordem mesmo em publicações conceituadas como o British Medical Journal.
Parece-me assim que, mesmo em alternativa, o modelo ULS parece enquadrar-se numa visão holística do sistema de saúde pelo que não deverá ser descurado!



Mário Peixoto
mariopeixoto@mail.pt
http://saudeminho.blogs.sapo.pt
publicado por Mário Peixoto às 10:30
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Março 2008

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. De costas voltadas....

. Com ou 100

. O poder do Blush

. Construir a Casa pelo Tel...

. O Enterro da Beata

. Promessas escritas...

. Banco Local de Voluntaria...

. Em nome da verdade

. Socorro

. O Ministro da Saúde e a a...

.arquivos

. Março 2008

. Janeiro 2008

. Junho 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Dezembro 2006

. Junho 2006

. Abril 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds