Terça-feira, 11 de Janeiro de 2005

Começar e Novo !

Os finais, assim como os inícios de anos civis, são por excelência épocas em que as pessoas dedicam mais algum do seu, cada vez mais ocupado tempo, a reflectir, efectuar balanços ou simplesmente a formular desejos que esperam ver realizados num maior ou menor espaço temporal. Sempre assim foi e sempre o será, levados por hábitos e costumes, mais ou menos históricos, que a sociedade nos vai impondo.
Outras alturas há em que as reflexões, a busca de ideias, a formulação dos ditos desejos deveria ser feita com mais objectividade, calma ou mesmo frieza...mas não, são deixadas invariavelmente para estas épocas de viragem de um novo ano.
Neste em particular, o final e o início do Novo Ano pareceram misturar-se como se algo se tivesse passado, como que de um filme se tratasse, sem intervalo, que nos deixa presos ao ecrã até ao final mais inesperado. Algo que na verdade nos merece a mais profunda reflexão! A recente catástrofe que abalou grande parte do mundo oriental.
Tal como a Tsunami, as notícias começaram a chegar sem que quase se desse por elas. A escalada dos números revelava-se cada vez mais assustadora e as imagens sucediam-se chocando os mais insensíveis. Foi assim possível percepcionar algo que não constava no dicionário do nosso imaginário revelando pormenores Dantescos e que determinam aquilo a que alguém já chamou “ a fragilidade cósmica do ser humano”.
Tal como São Tomé, foi preciso ver para crer! As imagens cruéis que todos os dias nos ferem a alma, quase todas captadas por vídeos amadores, e entopem os noticiários, tiveram, além de alterar a forma como hoje em dia se faz jornalismo, o condão de acordar uma Sociedade que se encontrava absorta nos seus pensamentos, tricas e demais quezílias despertando-a para mais nobres sentimentos como a solidariedade e o espírito de ajuda.
Sem precedentes, esta Onda de Solidariedade apenas minimizará os verdadeiros problemas de Saúde Pública que já existem e aqueles cuja probabilidade de virem a acontecer é tão forte como o embate da Tsunami: os milhares de mortos que se acumulam nas ruas findas quase duas semanas após o impacto; os desalojados e deslocados, as doenças que se alastram por uma população naturalmente fragilizada; as carências de índole alimentar e económica elevando as expressões Fome e Pobreza a limiares extremos, enfim, uma completa destruição física, moral e social !
Louve-se o papel das ONG (Organizações Não Governamentais) que rapidamente, fruto de um trabalho sério e eficaz, se deslocaram ao terreno e disponibilizaram recursos revelando-se parceiras essenciais, diria mesmo estratégicas, para a ajuda e desenvolvimento destas populações.
Para além do referido contributo não se têm inibido de, a seu tempo, denunciar as atitudes inconscientes de alguns dos protagonistas políticos que põem em causa a estabilidade do mundo em que vivemos. Atente-se o caso do Protocolo de Quioto. Assinado em 1997 este estipula que as emissões de poluentes causadores de aquecimento global deverão começar a ser reduzidas entre 2002 e 2012 em média 5.2% em relação aos níveis de 1990. Isto equivale a uma redução de 42% no nível actual de emissões. Existem factos concretos que indiciam aquecimento global assim como elevação dos oceanos. O nível do mar tem vindo a subir e em alguns lugares os efeitos já são sentidos. Em ilhas do Pacífico Sul constata-se o aumento da ocorrência de ciclones tropicais na última década, causados pelo aumento da temperatura das águas superficiais do oceano, o que interfere na ocorrência das tempestades. No entanto problema maior é a elevação do nível das águas do mar, inundando as áreas mais baixas, com a água salgada a contaminar a água potável e as culturas agrícolas. Também na Holanda, bem aqui mais perto, uma boa parte do território da costa do país foi construído através de diques no mar do Norte suscitando assim muita preocupação com a subida das águas.
Apesar de ter ficado bem patente que perante catástrofes desta dimensão pouco se pode fazer, não será inoportuno relembrar aqueles, quer a nível local quer nacional, com responsabilidades no planeamento e ordenamento do território assim como na implementação e melhoria dos sistemas de alerta catástrofes naturais, do muito trabalho que ainda há a desenvolver também em Portugal.
Por outro lado e sob pena de, perante este cenário, ficarem um tanto ao quanto esquecidas, uma palavra ainda para outras situações não menos dramáticas como a que tem vindo a suceder em Darfour no Sudão, com um genocídio a correr debaixo dos nossos olhos...outra catástrofe humanitária!!
Para aqueles que têm de começar tudo de novo resta-me desejar que esta Onda de Solidariedade se possa alastrar e os possa cobrir de coragem, força e outros recursos!!


Mário Peixoto
mariopeixoto@mail.pt
http://saudeminho.blogs.sapo.pt
publicado por Mário Peixoto às 10:20
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