Segunda-feira, 30 de Maio de 2005

O Sonho do Zé

O Zé ouvia, ou pelo menos fingia ouvir, atentamente as palavras prudentes do Pai Vitor, mas não as levava muito a sério, porque, lá no fundo, sabia que tinha um sonho e que esse sonho tanto podia ser escrito em boletins de voto como em poemas. Era um sonho feito de palavras fortes e de promessas vãs e esse, sonhava ele, seria uma espécie de panaceia para todos os males e doenças de que padecia a nossa sociedade. Costumava cantar:

“Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer...”

Mas de concreto e definido nada tinha este sonho. O Zé é acordado abruptamente com a notícia da previsão para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) de um défice 1512,8 milhões de euros superior ao previsto no Orçamento de Estado 2005 representando este valor cerca de 40% do aumento do défice global. Desta feita, um acréscimo de 1185,7 milhões de euros na despesa, com especial relevo para as dívidas a fornecedores (excluindo os hospitais- empresa) e uma diminuição nas receitas que advêm da menor prestação de serviços na ordem dos 327 milhões de euros. Já apontado como o principal factor de aumento da despesa pública em Portugal, a despesa com o SNS continua a crescer significativamente acima do PIB nominal ajudando a reflectir a habitual, e crescente, suborçamentação a que são vetadas as contas da Saúde. Salvou-se o investimento, que deverá ficar 796,2 milhões de euros abaixo do previsto pelo anterior governo, constituindo assim a única rubrica que contraria esta tendência negativa.

Amargurado, desorientado mas sempre com a convicção de que tudo se resolve, o Zé declama:

“Défice” é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer...;

Pouco convencidos, talvez desconfiados pelo preciosismo dos números apresentados (6,83%) e seguros dos envolvimentos, cenários e decisões políticas que determinam a obtenção destes valores, os seus adversários iniciaram as suas pressões obrigando a que o Zé resolvesse encetar algumas medidas sem contudo deixar de pensar:

“Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade...”



Destacam-se assim os aumentos da taxa máxima do IVA de 19% para 21%; do Imposto sobre Combustíveis e sobre o tabaco; da idade da reforma para os 65 anos e a suspensão das progressões automáticas na função pública maquilhado pelo, até agora, inconsequente combate à evasão fiscal. Sobre, por exemplo, o controlo da despesa com medicamentos ou a redução de custos operacionais na saúde com a modernização do sector suportada por novas tecnologias...nada! Qual choque tecnológico!
Medidas quase exclusivamente direccionadas para a obtenção de receita, descurando o controlo da despesa pública, contrariando assim uma grande parte das opiniões insistentemente veiculadas por conceituados economistas da sua praça, que, perante tamanha confusão bradam:

“Não sei para onde vou,
– Sei que não vou por aí!”

Mas o Zé não ouve. Continua confiante e determinado. Custe o que custar e a quem custar, aposta na realização do seu sonho porque, segundo diz:

“Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre a mãos de uma criança....”



Mário Peixoto
mariopeixoto@mail.pt
http://saudeminho.blogs.sapo.pt
publicado por Mário Peixoto às 12:49
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