Domingo, 23 de Março de 2008

O Enterro da Beata

«Ser fumador passivo não é um aborrecimento, é mortal», Douglas Bettcher (OMS)

Rezam as crónicas que a planta do tabaco é originária do continente Americano e terá sido difundida pela Europa, após as viagens de Cristovão Colombo.

Desde muito cedo se percebeu que, mais do que as suas anunciadas propriedades terapêuticas (para as enxaquecas, pneumonia, chagas, gota ou até raiva), o seu verdadeiro valor residia na capacidade em criar dependência e estimular o consumidor pela transmissão de sensações classificadas de “reconfortantes”.

A procura aumentou exponencialmente, fomentando fortes monopólios e, por conseguinte, originou também fortes repressões das autoridades da época.

O factor económico esteve pois na génese deste movimento social.

Exemplos correntes mas paradigmáticos das acções desenvolvidas na época são as ordens de tortura pelo Czar Fedorovich a qualquer consumidor de tabaco até que este confessasse quem tinha sido o seu fornecedor, para depois mandar cortar o nariz a ambos ou ainda o sultão Murad IV que castigava com decapitação, desmembramento ou mutilação quem encontrasse a fumar.

Mais tarde, num passado muito recente, as questões em torno do tabagismo passaram a centrar-se quase exclusivamente na problemática da Saúde Pública: nos seus principais malefícios (ex.: irritação das vias respiratórias, bronquite crónica, enfisema pulmonar, arteriosclerose, trombose ou enfarte do miocárdio) e na sua capacidade para criar dependência.



Hoje, o tabagismo, seja ela activo ou passivo, não é um problema único e exclusivo de Saúde Pública e não pode ser discutido de forma isolada.

Para além deste são levantadas questões de âmbito político, em especial sobre o papel do Estado, questões de direitos e liberdades, éticas, de modelos de comportamento ou mesmo alusivas aos sistemas de produção, do consumo e dos lobbies.

Também hoje sabemos que o consumo de tabaco constitui a principal causa evitável de doença e de morte, na medida em que o fumo do tabaco é composto por milhares de substâncias químicas, com efeitos tóxicos, mutagénicos e cancerígenos, que afectam não só os fumadores como também as pessoas expostas ao fumo do tabaco.

Volvidos mais de vinte anos após inúmeras tentativas frustadas de criar algumas regras e percepcionado que, com prevenção, por si só, não eram atingidos resultados positivos significativos, foi publicada, precisamente com o intuito de proteger todos aqueles sujeitos a uma exposição involuntária ao fumo de trabalho, seja nos locais de trabalho ou de lazer, a famigerada Lei 37/2007.

Uma semana depois do início da aplicação da lei, não fossem os episódios hilariantes protagonizados pelo responsável máximo da ASAE e alguns regimes de excepção controversos ( casinos e outras salas de jogo) o balanço, diria quase inânime, no que respeita ao objectivo que pautou esta publicação, seria francamente positivo.

Objectivamente não poderei basear esta minha interpretação em qualquer análise estatística mas, o simples facto de conhecer vários casos de fumadores que encontraram agora um bom motivo para abandonar o tabaco e definitivamente “enterrar a beata” ou até mesmo poder frequentar um centro comercial, uma pastelaria ou o local de trabalho sem inspirar milhares de partículas tóxicas, constituiu motivo de satisfação redobrada.
publicado por Mário Peixoto às 19:16
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