Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2006

Triagem dos Serviços de Urgência

São tidas como afirmações de princípio, inseridas no Programa do Governo, os ideais, dos quais aliás partilho : “a saúde é um bem e um direito de todos os cidadãos” e que, como tal, é fundamental “ garantir às pessoas um atendimento de qualidade, em tempo útil, com eficácia e com humanidade, através de um Sistema de Saúde centrado no cidadão e orientado para a prestação de cuidados de saúde a quem precisa e não para a satisfação das necessidades internas do próprio sistema”
Este desiderato implica, cada vez mais, dadas as fortíssimas condicionantes ao nível dos recursos disponíveis, quer financeiros quer humanos, uma gestão mais rigorosa.
Para qualquer gestor que actue no sector, o objectivo major passará sempre pela delineação de estratégias que visem a obtenção de maiores ganhos em saúde com os recursos de que dispõe. Uma das estratégias, anunciada no ano transacto, passa pelo processo de reorganização das urgências. Como qualquer outro processo que implique alteração de hábitos, é, também neste, natural constatar-se alguma resistência à mudança, em especial daqueles que directa ou indirectamente contactam com os serviços. O que não parece ser natural é a resistência à mudança patenteada por aqueles que definiram como meta este objectivo mas que o tardam em cumprir. Recorde-se que ainda são desconhecidas as urgências hospitalares que vão ser encerradas e as que serão reestruturadas passando a designar-se urgências básicas.
Embora legítima, a preocupação demonstrada pela Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), temendo que esta reestruturação vá afectar principalmente as zonas já desfavorecidas do interior do país, só terá razão de ser se não forem cumpridos os pressupostos que compensem o encerramento/restruturação dos serviços pouco utilizados, isto é, a falta de meios de transporte de emergência com meios adequados de suporte de vida ou a existência de áreas geográficas completamente descobertas e não acessíveis em tempo útil.
A dita estratégia passa por uma divisão em três níveis (urgências polivalentes, nos hospitais maiores; urgências médico-cirúrgicas, nos intermédios; e as urgências básicas nos centros de saúde) sabendo que serão encerradas aquelas urgências que atendam menos de 25 utentes por noite bem como os serviços de atendimento permanente dos centros de saúde com menos de dez atendimentos nocturnos. Contudo, deverá ser garantido a todos os utentes um serviço de urgência disponível a menos de 60 minutos (será razoável?...em especial para doentes do foro cardíaco ou respiratório?).
Por seu turno é definido, por Despacho do Ministro da Saúde - 19 124/2005 de 17 de Agosto de 2005-, que as urgências hospitalares terão de contar obrigatoriamente (até final do ano passado) com um serviço de triagem, seja o protocolo de Manchester ou outro validado internacionalmente. Todavia, dos 79 Hospitais apenas 37 têm o sistema em funcionamento sendo que, por curiosidade, esses mesmos 37 já o tinham antes mesmo da publicação do supracitado despacho datado de Agosto 2005.
Assim, não deixa de ser curioso o facto de existir, por um lado, um despacho que “obriga” a existência do sistema de triagem nos 79 hospitais quando, por outro, se anuncia a firme intenção de reorganizar as urgências o que levará, com certeza, como referido, ao encerramento ou restruturação de algumas delas. Fará sentido aplicar verbas, provavelmente avultadas, na implementação de serviços de triagem em locais cujas urgências provavelmente encerrarão?
Segundo o sistema de triagem de Manchester será assim entregue a fita de cor vermelha (emergente) ao Ministro da Saúde para que possa ser imediatamente ajudado a resolver esta situação.



Mário Peixoto
http://saudeminho.blogs.sapo.pt
publicado por Mário Peixoto às 12:55
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1 comentário:
De Matarruano Beiro a 5 de Fevereiro de 2006 às 05:04
Impressionante o numero de reformas Bomerang que os sucessivos governos têm vindo a aplicar ao cristalizado galeão espanhol que é o nosso SNS.
Nesta numerosa teia de hierarquias e egos inoperantes, reforma após reforma, o poder volta sempre à mão das estruturas corporativas cimentadas ao longo dos anos, no que chamam direitos adquiridos mas que em rigor qualquer um vê privilégios, lambonice e negociata.
Enquanto os irresponsáveis se preocupam em abater os botes salva vidas com se de lastro se tratasse, os Francis Drakes de circunstância carregam em força sobre o galeão.
Os tostões que possam poupar por fechar meia dúzia de urgências, seriam facilmente recuperáveis se ao invés de Fanfarronice pedante de taberna dos nossos irresponsáveis, houvesse mais coragem e músculo para quebrar privilégios instituídos(as celebres carapaças que há uns meses ouvimos falar mas que rapidamente se esqueceram).

A tudo isto acresce o facto de historicamente o país estar inclinado para sudoeste, não procurem a inclinação na cartografia, será inútil, pesquisem antes nos índices de desenvolvimento e no volume de investimento público.
Resta-nos perguntar se para o acesso aos cuidados de saúde, um bem básico e precioso, pretendemos a mesma lógica economicista.
Deverá ser o SNS a ir ao encontro dos utentes, ou terão de ser os utentes a migrar à procura do SNS?
Quando mais apoio retirarem ao interior menos pessoas para apoiar terão e após esta sangria silenciosa, ninguém restará para tocar à campainha das urgências do Portugal esquecido, aí poderão fechar definitivamente as portas como tanto anseiam.


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